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México proíbe escolas militarizadas após mortes e denúncias de abusos

Decisão do governo busca encerrar um modelo de ensino baseado em práticas militares; mudança divide famílias, provoca protestos e reacende o debate sobre disciplina, violência e formação de estudantes.


México proíbe escolas militarizadas após mortes e denúncias de abusos Foto: BBC

O governo do México determinou o fim das escolas militarizadas, instituições que adotavam uniformes, hierarquia e métodos de disciplina inspirados nas Forças Armadas. A decisão foi anunciada após a morte de uma adolescente de 13 anos durante um acampamento de verão militarizado, caso que provocou comoção no país e ampliou as cobranças por fiscalização e segurança nessas instituições.

A medida foi determinada em julho pela Secretaria da Educação Pública do México, sob o argumento de que as escolas militarizadas não possuem respaldo legal para oferecer esse modelo de formação, uma vez que a educação militar é atribuição das Forças Armadas. A iniciativa conta com o apoio da presidente Claudia Sheinbaum e obriga as instituições a abandonar a estrutura militarizada e reorganizar suas atividades.

O caso que intensificou o debate foi o de Dafne Zapata, de 13 anos, que morreu por asfixia por submersão durante um acampamento no estado de Tamaulipas, no nordeste mexicano, segundo a autópsia. A família denuncia tortura, enquanto a promotoria investiga a morte como possível feminicídio. Três pessoas foram detidas no caso.

A decisão, porém, vai além de uma mudança nos uniformes ou na forma como os estudantes são chamados. Durante décadas, essas escolas adotaram práticas como filas rígidas, comandos militares, tratamento hierárquico e uma rotina voltada à obediência e à disciplina. Agora, dezenas de instituições precisam adaptar seus métodos de ensino, rever a atuação dos instrutores e encontrar uma nova identidade educacional.

Na Cidade do México, o Colégio Moderno Alarid está entre as instituições que passam por essa transformação. O diretor, Óscar Lira, que também estudou no local e vem de uma família de militares, afirma que a escola decidiu respeitar a determinação do governo e preservar os aspectos da formação que considera importantes para a educação.

A mudança já aparece no cotidiano dos estudantes. Os uniformes deixaram de ter a estética militar, e expressões tradicionais, como chamar o diretor de comandante ou os alunos de cadetes, estão sendo substituídas por termos civis. Apesar disso, algumas práticas de organização e disciplina ainda permanecem, demonstrando o desafio de modificar uma cultura construída ao longo de muitos anos.

A transição também tem provocado dificuldades financeiras. Segundo o relato, as matrículas em algumas instituições, incluindo o Colégio Moderno Alarid, caíram quase pela metade após a determinação do governo. Outras escolas precisaram encerrar as atividades, enquanto famílias passaram a organizar protestos contra o fim do modelo.

Na cidade de Puebla, pais de alunos da Academia Zaragoza bloquearam avenidas para defender a continuidade da instituição. Eles argumentam que a escola oferecia disciplina e valores e que não deveria ser responsabilizada por acontecimentos registrados em outros estabelecimentos. Em Zacatecas, famílias também criticaram a substituição de instrutores militares por professores civis em uma escola pública militarizada, questionando a mudança na proposta pedagógica.

A resistência está relacionada à percepção de que a formação militarizada ajuda a desenvolver responsabilidade, respeito às regras, organização e espírito de equipe. Uma pesquisa da consultoria Dinamic, citada no levantamento, apontou que um terço dos mexicanos consultados rejeitava o fechamento em massa das escolas, embora defendesse a realização de auditorias. Outros 27% apoiavam o encerramento definitivo, enquanto parte dos entrevistados demonstrava posição indefinida.

Entretanto, a morte de Dafne não foi o único caso a levantar questionamentos sobre esse modelo. Em 2023, Zamir Pinto, de 16 anos, morreu após sofrer diversos golpes no estômago em uma instituição militarizada no Estado do México. Uma pessoa foi detida, e a escola acabou fechada. Em 2025, Érick Terán Torbellín, de 13 anos, morreu durante um acampamento da Academia Ollin, no estado de Morelos. Relatos de colegas apontaram possíveis agressões por parte de uma instrutora, enquanto a instituição atribuiu a morte a uma onda de calor. Três pessoas foram detidas.

Apesar dos episódios, não existem registros oficiais abrangentes que contabilizem abusos e mortes nas escolas militarizadas mexicanas. Durante anos, essas instituições permaneceram em uma área de indefinição entre a supervisão civil e a militar, dificultando a identificação do número total de estabelecimentos e o acompanhamento sistemático de suas atividades.

O debate também alcança as escolas militares oficiais, que são vinculadas às Forças Armadas e possuem outra estrutura institucional. Uma das mais conhecidas é o Heroico Colégio Militar, criado no século 19 e responsável pela formação de futuros comandantes do Exército mexicano. A instituição é reconhecida por seu rigor acadêmico e por um processo seletivo exigente, mas também é alvo de críticas relacionadas a práticas de iniciação e denúncias de violência.

O filme Heroico, lançado em 2023, retrata abusos, corrupção e consequências psicológicas associadas à experiência em instituições militares. Santiago Sandoval, que frequentou um colégio militar e participou da produção, relatou consequências físicas e emocionais graves vivenciadas por pessoas próximas. O cineasta David Zonana também afirmou que a obra enfrentou resistência e que integrantes do elenco receberam ameaças.

Especialistas ouvidos na reportagem questionam a ideia de que agressões e humilhações sejam necessárias para desenvolver o caráter. O ex-cadete Víctor Hernández Ojeda, atualmente especialista em segurança, afirma que práticas violentas podem produzir consequências psicológicas e favorecer comportamentos agressivos, em vez de promover uma formação saudável.

Ao mesmo tempo, o caso revela a força da tradição militar na sociedade mexicana. O país mantém uma cultura cívica marcada por homenagens aos símbolos nacionais, cerimônias escolares e desfiles cívico-militares. Em muitas escolas, atividades relacionadas à bandeira e ao hino nacional fazem parte da rotina, reforçando a presença de referências militares mesmo em instituições civis.

Para o antropólogo Joel Trujillo, que estuda as Forças Armadas, não é possível compreender a existência das escolas militarizadas sem considerar a história política e educacional do México. Segundo ele, décadas de governos comandados por generais ajudaram a consolidar símbolos e práticas militares na organização social e no sistema de ensino.

A desmilitarização, portanto, representa um desafio que vai além da retirada de uniformes e da mudança de comandos. O governo busca estabelecer limites legais para esse tipo de instituição, enquanto escolas e famílias tentam definir quais práticas poderão permanecer dentro de um modelo civil de educação.

O principal ponto de discussão é como preservar valores como responsabilidade, respeito e cooperação sem permitir que a disciplina seja confundida com violência ou submissão. A experiência mexicana coloca em evidência o debate sobre os limites da autoridade nas escolas e a necessidade de garantir que a formação dos estudantes aconteça em ambientes seguros, com respeito aos direitos e à integridade física e emocional de crianças e adolescentes.

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