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Lívia Ikeda Martins

Pesquisa revela que 79,4% dos professores apresentam indícios de Burnout; burocracia é o principal fator de risco

Trabalho de Conclusão de Curso dos alunos da Etec de Bauru (SP) identifica impacto de sintomas de Burnout em professores das redes pública e privada


Pesquisa revela que 79,4% dos professores apresentam indícios de Burnout; burocracia é o principal fator de risco Imagem: Freepik

Um estudo desenvolvido pelos alunos Hiro Martins Santos, Maria Clara da Silva e Rafaela Vieira dos Santos, do Centro Estadual de Educação Tecnológica Paula Souza - Etec Rodrigues de Abreu -, de Bauru-SP, identificou um cenário crítico de adoecimento mental entre profissionais da educação. Apresentado como Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) do ensino médio integrado ao curso Técnico em Administração, sob a orientação da Profa. Me. em Educação, Glaucia Fernanda Canela Losila, também especialista em Gestão de Pessoas com Ênfase em Estratégias e em Neuropsicopedagogia, o projeto analisou 194 professores anônimos, entre rede pública e privada, e revelou que 79,4% apresentam indícios da Síndrome de Burnout, comprovando 34% dos profissionais em níveis críticos.

Intitulado “A Relação Entre a Carga de Trabalho Docente e o Burnout: Análise do Equilíbrio Entre a Demanda e o Bem-estar”, o estudo utilizou metodologia quantitativa, descritiva e correlacional, com questionário baseado no Maslach Burnout Inventory (MBI) e análise estatística em Python. 

Contexto nacional reforça gravidade do problema

A pesquisa dialoga com dados recentes da Organização Mundial da Saúde (OMS) e da International Labour Organization (ILO), que apontam o Brasil como o segundo país com o maior índice de Burnout do mundo. Professores figuram entre as três categorias mais vulneráveis ao adoecimento mental ocupacional.

Outros levantamentos do TCC reforçam o alerta:

  • Instituto Península (2025): 58% dos docentes relatam exaustão frequente;

  • Fundação Lemann (2024): 42% dos docentes consideram deixar a profissão devido ao desgaste emocional;

  • OCDE – Education at a Glance (2023): docentes enfrentam sobrecarga crescente, pressão por resultados e falta de apoio institucional.

Os resultados obtidos pelos estudantes da Etec de Bauru não apenas confirmam essas tendências, como revelam índices ainda mais elevados de esgotamento.

Principais achados do estudo

A análise realizada com os 194 participantes revelou:

  • 76,3% da amostra é composta por mulheres;

  • Média de idade é de 40 anos;

  • 77,8% atuam na Rede Pública;

  • 79,4% apresentam indícios de Burnout (níveis 3, 4 e 5);

  • 34% estão em níveis críticos;

  • Carga administrativa foi o fator de risco mais forte (r=0.43);

  • Tempo para lazer foi o principal fator protetor (r=–0.41);

  • A Intenção de abandonar a profissão apresentou a maior correlação com o esgotamento (r=0.60);

  • A exposição à violência escolar elevou significativamente os níveis de Burnout.

Os dados reforçam que o adoecimento docente está diretamente ligado ao desequilíbrio entre altas demandas (burocracia, violência, sobrecarga) e baixos recursos (lazer, apoio institucional, autonomia).

Especialista destaca relevância e aplicabilidade do estudo

A Profa. Esp. em Pedagogia, Angélica Aschenbrenner Azevedo, docente da própria Etec e avaliadora do trabalho, destacou sua importância para o setor educacional: “O trabalho apresentado pelo grupo é um instrumento muito importante para mapeamento e prevenção de problemas relacionados à saúde mental do trabalhador, um tema tão falado e tão pouco explorado em profundidade”.

A especialista também ressaltou que “o diferencial do TCC dos alunos está na preocupação com uma categoria muito vulnerável às doenças mentais relacionadas ao trabalho: os professores. Para muito além, o grupo não se preocupou somente em estudar sobre o tema, mas criou um instrumento muito interessante e detalhado para mapear e prevenir o burnout dos trabalhadores”.

Por fim, destacou o potencial de impacto institucional: “Com certeza o trabalho tem um potencial incrível para ser utilizado e explorado dentro da instituição, não somente no âmbito da Etec de Bauru, mas com relação a todas as Etecs do Estado, como um instrumento para a atenção à saúde de seus professores, podendo também ser utilizado em outras instituições públicas e privadas”.

A urgência de reconhecer e prevenir o Burnout na docência

A professora Glaucia, enquanto orientadora do projeto, reforça a necessidade de ampliar esse olhar dentro das instituições de ensino. Ela destaca: “É de extrema importância ter esse olhar que o grupo teve em relação à Síndrome de Burnout. Hoje, sabemos que isso é um fato, uma necessidade que ocorre em qualquer meio da gestão. O olhar que eles direcionaram à profissão docente é essencial, porque sempre ouvimos falar de Burnout nas empresas, nas organizações, especialmente em setores como recuperação de crédito e telemarketing — mas quantas outras tantas áreas também não precisam desse olhar?".

A especialista explica que, da mesma forma, o docente merece essa atenção, o que não é comumente mencionado. "Foi uma atenção diferenciada que eles tiveram ao desenvolver esse trabalho. Houve até o questionamento: ‘um curso de administração falando sobre professores?’ Mas o Burnout está em todas as profissões. A gestão e o corpo diretivo precisam conduzir ações para auxiliar, para que docentes, administrativos e a própria instituição não desencadeiem esse processo", reitera.

A profissional comenta que esse é um problema presente na rotina de todas as pessoas. "E quando percebemos, muitas vezes já estamos na situação, sem ao menos notar que estávamos entrando ou passando por algo que a desencadeou”, explica. Ao comentar sobre a possibilidade de a própria instituição de ensino avançar em ações preventivas, Glaucia acrescenta: “É fundamental ter esse olhar diferenciado, enquanto unidade escolar, para os docentes. Eu acredito que é possível desenvolver um trabalho mais robusto na unidade, especialmente por meio da Comissão Interna de Prevenção de Acidentes na Escola (CIPAN), que é composta por docentes e administrativos. É possível criar algo que possa ser aplicado e ajudar no processo, para que os profissionais não cheguem a esse ponto do Burnout", complementa.

Implicações e recomendações

O estudo conclui que o desequilíbrio entre demandas elevadas e recursos insuficientes é o principal preditor do Burnout docente. Entre as recomendações, destacam-se:

  • Desburocratização das rotinas escolares;

  • Fortalecimento do suporte institucional e da liderança escolar;

  • Programas contínuos de saúde mental;

  • Valorização e reconhecimento profissional;

  • Melhorias estruturais e ergonômicas;

  • Incentivo ao lazer e ao autocuidado.

Como ressalva, a conclusão reforça, ainda, a urgência de políticas públicas e institucionais voltadas à saúde mental dos educadores.



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