Bets deixam de ser diversão e passam a preocupar especialistas por impactos na saúde
Pesquisa aponta que 38% dos brasileiros apostam em plataformas esportivas e mostra casos de endividamento, perda de controle e prejuízos emocionais
Foto: Reprodução Internet / Extra As apostas esportivas ganharam espaço na rotina dos brasileiros, mas o crescimento das bets também vem acompanhado de sinais de alerta relacionados à saúde financeira e emocional. Uma pesquisa realizada pelo instituto Hibou, com mais de 2.400 pessoas maiores de 18 anos, aponta que 38% dos entrevistados afirmam apostar em plataformas desse tipo.
Entre os apostadores, 53% disseram já ter deixado de pagar alguma conta em dia para conseguir apostar. Em 28% dos casos, isso aconteceu algumas vezes, enquanto 25% afirmaram que a situação ocorreu pelo menos uma vez. O levantamento também mostra que 80% dos apostadores reconhecem que as apostas esportivas podem se transformar em vício.
Mesmo com essa percepção, uma parcela dos usuários já apresenta sinais de perda de controle. Segundo a pesquisa, 15% afirmaram que as apostas já saíram do controle ou provocaram impactos negativos na vida financeira ou emocional. Outros 23% disseram ter enfrentado esse tipo de situação raramente.
Um dos principais fatores de risco é a tentativa de recuperar o dinheiro perdido. Depois de uma derrota, o apostador pode aumentar os valores investidos na expectativa de compensar o prejuízo, criando um ciclo que pode resultar em novas perdas, dívidas e comprometimento de despesas básicas.
Estimativas reunidas em estudos sobre o tema apontam que cerca de 12,7 milhões de brasileiros podem estar em situação de uso arriscado de jogos de apostas. O problema também pode gerar impactos econômicos e sociais, além de consequências para a saúde mental e para as relações familiares.
Entre os sinais de alerta estão ansiedade, irritabilidade quando a pessoa não está apostando, insônia, vergonha, sensação de perda de controle e preocupação constante com as apostas. Na parte financeira, o comprometimento de dinheiro destinado a alimentação, aluguel, medicamentos e outras despesas essenciais deve ser observado com atenção.
Empréstimos frequentes para continuar apostando, venda de bens, pedidos de dinheiro sem explicação, mentiras sobre os valores gastos, aumento do tempo dedicado às plataformas e novas apostas logo após uma perda também podem indicar que o comportamento deixou de ser recreativo.
O problema nem sempre chega aos serviços de saúde de forma direta. Uma pessoa pode procurar atendimento por ansiedade, insônia, irritabilidade, depressão ou conflitos familiares sem mencionar inicialmente que as apostas estão relacionadas à situação. Por isso, profissionais de saúde têm ampliado a atenção para esse tipo de comportamento durante consultas.
No Rio de Janeiro, unidades de Atenção Primária passaram a incluir perguntas sobre apostas em atendimentos de rotina. A estratégia busca identificar precocemente pessoas que apresentam sinais de uso problemático e criar um ambiente em que o paciente possa falar sobre dívidas, perdas e consequências emocionais sem ser tratado de forma preconceituosa.
Para familiares, a orientação é abordar o problema sem humilhação ou ameaças. Também é importante evitar novos empréstimos para cobrir prejuízos das apostas sem que exista um plano de cuidado. O SUS oferece atendimento pelas Unidades Básicas de Saúde e, quando necessário, pelos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS).
Também existe a possibilidade de utilizar a Plataforma Centralizada de Autoexclusão do Ministério da Fazenda, que permite bloquear contas mantidas em empresas autorizadas, impedir novos cadastros vinculados ao CPF e interromper o recebimento de publicidade direcionada.
Em situações de risco de suicídio, autolesão, violência ou ameaça à própria vida, a recomendação é procurar imediatamente uma Unidade de Pronto Atendimento ou hospital. Também é possível acionar o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), pelo telefone 192.
O reconhecimento precoce dos sinais pode ajudar a interromper o ciclo de perdas e permitir que a pessoa busque atendimento antes que as apostas comprometam de forma mais profunda suas finanças, sua saúde mental e seus relacionamentos.





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