Calor acumulado nos oceanos atinge maior nível já registrado, aponta observatório europeu
Oceanos armazenaram em 2025 energia equivalente a cerca de 40 vezes o consumo mundial no ano; elevação do nível do mar também apresenta aceleração
Foto: AP Photo/Robert F. Bukaty, File A quantidade de calor acumulada nos oceanos atingiu em 2025 o maior nível já registrado, segundo um novo relatório do serviço marinho do observatório europeu Copernicus. Os dados mostram que, somente no ano passado, os mares armazenaram 23 zettajoules adicionais de energia, quantidade equivalente a aproximadamente 40 vezes toda a energia consumida no mundo durante o mesmo período.
O levantamento aponta que o processo de acúmulo de calor nos oceanos vem se intensificando desde 1960. Além do aumento da energia armazenada nas águas, os pesquisadores identificaram uma aceleração na elevação do nível médio do mar e mudanças na composição química dos oceanos, que ficaram mais ácidos ao longo das últimas décadas.
Os dados fazem parte da décima edição do relatório anual dedicado ao acompanhamento das principais transformações nos oceanos. O trabalho reúne informações obtidas por satélites, medições realizadas diretamente no mar e modelos científicos, contando com a participação de 125 pesquisadores de diferentes países.
O calor analisado pelos cientistas não está relacionado apenas à temperatura da superfície. Os pesquisadores também medem a quantidade de energia armazenada nas diferentes camadas do oceano. Essa análise permite identificar alterações mais profundas e duradouras que nem sempre são percebidas quando são consideradas somente as temperaturas próximas à atmosfera.
O aquecimento das águas pode produzir efeitos em diferentes partes do planeta. Entre eles estão mudanças nos ecossistemas marinhos, expansão térmica da água, contribuição para a elevação do nível do mar e impactos sobre regiões costeiras. Alterações nos oceanos também podem influenciar padrões meteorológicos e aumentar a exposição de determinadas comunidades a eventos extremos.
Um dos dados que chamam atenção está justamente na elevação do nível dos oceanos. Entre 1999 e 2025, o nível médio global do mar aumentou cerca de 3,8 milímetros por ano. Quando considerado o período mais recente, entre 2012 e 2025, essa taxa chegou a 4,2 milímetros anuais, indicando uma aceleração.
Outra transformação identificada está na acidez da água. De acordo com o relatório, os oceanos ficaram aproximadamente 17% mais ácidos entre 1985 e 2025. O fenômeno ocorre porque os mares absorvem parte do dióxido de carbono presente na atmosfera, provocando alterações na composição química da água e criando novos desafios para diferentes espécies e ecossistemas marinhos.
Os pesquisadores também encontraram sinais de que o calor não permanece restrito à superfície. No Mediterrâneo e no Mar Negro, por exemplo, ondas de calor marinhas registradas em 2024 chegaram a durar mais de 30 dias, com temperaturas superiores em mais de 4,6°C à média em determinados episódios. Parte dessa energia foi identificada a aproximadamente 40 metros de profundidade.
O Mediterrâneo registrou ainda, em 2024, o maior número de dias sob ondas de calor marinhas das últimas duas décadas. A temperatura média ficou 1,23°C acima da referência utilizada pelos pesquisadores para o período entre 1982 e 2024.
As mudanças, no entanto, não acontecem de maneira uniforme em todos os oceanos. Características locais, como geografia, infraestrutura costeira, correntes marítimas e exposição das cidades ao mar, podem fazer com que os efeitos sejam diferentes de uma região para outra.
Os sinais também são observados nas regiões polares. No Mar de Barents, no Ártico, a extensão do gelo marinho diminuiu 70% desde 1982. Na Antártida, o nível excepcionalmente baixo de gelo registrado em 2022 coincidiu com problemas de reprodução em grande escala em colônias de pinguins-imperadores.
Pequenos países insulares também estão entre as regiões acompanhadas com atenção. Desde 1960, todas as áreas marítimas desses países analisadas pelo levantamento apresentaram aquecimento. Além disso, 65% da área oceânica conjunta esteve exposta a uma aceleração da elevação do nível do mar desde 1999.
O relatório destaca ainda que quase 28% das águas desses países abrigam recifes de coral classificados como vulneráveis, ameaçados ou criticamente ameaçados. Esses ambientes possuem importância para a biodiversidade e também estão diretamente relacionados à pesca, ao turismo e à proteção natural das regiões costeiras.
Os dados apresentados pelo observatório mostram que aquecimento das águas, elevação do nível do mar, acidificação e alterações nos ecossistemas fazem parte de um conjunto de transformações de longo prazo. O acompanhamento dessas mudanças é considerado fundamental para compreender como os oceanos estão respondendo ao aquecimento global e para auxiliar regiões costeiras na preparação para possíveis impactos nas próximas décadas.




COMENTÁRIOS