Alunos brasileiros já usam IA para estudar, mas escolas ainda se adaptam
Quase metade dos estudantes recorre semanalmente a chatbots, enquanto escolas ainda enfrentam dificuldades para preparar professores e estruturar o uso pedagógico da tecnologia
Foto: Magnific A Inteligência Artificial já faz parte da rotina de muitos estudantes brasileiros, principalmente na hora de tirar dúvidas, pesquisar conteúdos e auxiliar nas atividades escolares. Dados do Pisa 2025 mostram que 48% dos alunos no Brasil afirmam utilizar chatbots de IA pelo menos uma vez por semana para ajudar nos estudos. O percentual é próximo da média registrada entre os países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), de 46%.
O avanço do uso da tecnologia, porém, acontece em um cenário em que as escolas ainda buscam maneiras de acompanhar essa transformação. O Brasil registrou índice de -0,86 na preparação das instituições para a aprendizagem digital, enquanto a média da OCDE ficou em -0,03. O indicador considera fatores como disponibilidade de equipamentos e recursos digitais, acesso à internet, suporte técnico e preparação dos professores.
Outro dado chama atenção para a necessidade de preparar os estudantes para lidar de forma crítica com as respostas produzidas pela IA. Apenas 51,2% dos alunos brasileiros afirmam aprender em sala de aula a avaliar informações produzidas por essas ferramentas. Para especialistas, mais importante do que simplesmente permitir ou proibir a tecnologia é ensinar os jovens a questionar, conferir e interpretar aquilo que recebem.
O uso consciente da IA também pode estar associado a melhores resultados acadêmicos. Segundo os dados do Pisa, estudantes que utilizam essas ferramentas com frequência e, ao mesmo tempo, aprendem na escola a avaliar a qualidade das informações produzidas por elas apresentam desempenho superior em Ciências em comparação com aqueles que usam IA com frequência sem receber esse tipo de orientação.
O desafio, portanto, não está apenas no acesso à tecnologia, mas na forma como ela é incorporada ao processo de aprendizagem. O professor João Carlos Bernardo Machado, da área de pedagogia, chama atenção para as desigualdades existentes entre as escolas brasileiras e para a falta de investimentos que ainda limita a estrutura disponível em muitas instituições.
A discussão também envolve o desenvolvimento do senso crítico. Quando a IA é utilizada apenas para entregar uma resposta pronta, existe o risco de o estudante deixar de percorrer as etapas necessárias para compreender determinado conteúdo. Por isso, especialistas defendem que as atividades escolares valorizem cada vez mais o raciocínio, a interpretação e o caminho utilizado pelo aluno para chegar a uma conclusão.
O Pisa também aponta outro efeito relacionado à tecnologia: estudantes brasileiros que relatam distração com aparelhos digitais apresentam desempenho em Ciências até 19 pontos menor. Nesse contexto, a discussão sobre o uso de celulares nas escolas ganhou força e, desde 2025, uma lei federal estabelece restrições ao uso de aparelhos eletrônicos pessoais por estudantes durante aulas, recreios e intervalos.
Para acompanhar a presença cada vez maior da IA, escolas também precisam repensar suas formas de avaliação. Em vez de cobrar apenas respostas que podem ser facilmente encontradas na internet ou geradas por um chatbot, a tendência defendida por especialistas é valorizar atividades que exijam compreensão, argumentação, resolução de problemas e domínio dos processos.
A tecnologia, nesse cenário, não precisa necessariamente ser afastada das salas de aula. Ela pode ser utilizada como ferramenta de apoio, desde que existam regras claras e orientação dos educadores. O principal desafio para as escolas brasileiras é fazer com que a Inteligência Artificial contribua para o aprendizado sem substituir justamente aquilo que a educação busca desenvolver: autonomia, reflexão e capacidade de pensar de forma crítica.




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