França aumenta cobertura vacinal com mudanças na lei e melhorias no sistema de imunização
País europeu ampliou a vacinação infantil após tornar 11 imunizantes obrigatórios e reforçar o acompanhamento nas escolas; experiência mostra que facilitar o acesso às doses é tão importante quanto combater a desinformação
Foto: AFP via Getty Images A França encontrou uma maneira de aumentar a cobertura vacinal que vai além do combate às notícias falsas sobre imunizantes. Desde 2018, o país europeu adotou mudanças na legislação, reforçou o acompanhamento da vacinação infantil e estabeleceu novas responsabilidades para escolas e famílias. Os resultados mostram que a combinação entre regras claras, organização dos serviços de saúde e facilidade de acesso pode contribuir para ampliar a proteção da população.
Antes das mudanças, a França enfrentava altos índices de desconfiança em relação às vacinas. Uma pesquisa internacional publicada em 2019 apontou que aproximadamente um terço dos franceses considerava os imunizantes inseguros. Diante desse cenário, o governo promoveu debates e estudos para identificar os obstáculos à vacinação e recuperar a confiança da população.
Uma das principais medidas foi ampliar de três para 11 o número de vacinas obrigatórias para crianças. A legislação também passou a exigir a comprovação da imunização para a frequência em creches, escolas e outras atividades coletivas infantis. Com isso, o acompanhamento deixou de depender apenas da iniciativa dos pais e passou a envolver também as instituições de ensino.
Os resultados apareceram nos anos seguintes. A cobertura da vacina contra o meningococo C, por exemplo, passou de 35% em 2017 para 75% em 2018, chegando a aproximadamente 89% em 2023. Na vacinação contra o sarampo, a primeira dose voltou a alcançar índices próximos ou superiores a 95%, embora a cobertura da segunda dose ainda exija atenção.
Outro aspecto importante foi a forma como as mudanças foram implementadas. Segundo especialistas ouvidos pela BBC News Brasil, as alterações resultaram de consultas e discussões com profissionais de saúde e cidadãos. Após a entrada em vigor da lei, o debate público sobre a obrigatoriedade perdeu espaço, enquanto a confiança nos imunizantes apresentou melhora nos anos seguintes.
A experiência francesa também evidencia que nem toda pessoa que deixa de se vacinar ou de levar uma criança para receber uma dose é contrária à imunização. Esquecimento, falta de tempo, dificuldades de deslocamento, horários incompatíveis com o trabalho e dúvidas sobre a segurança das vacinas estão entre os fatores que podem comprometer a cobertura.
Por isso, especialistas defendem que o enfrentamento à hesitação vacinal precisa combinar informação de qualidade com medidas práticas. Ampliar o horário de funcionamento dos postos, oferecer vacinação em escolas e locais de grande circulação, treinar profissionais de saúde e melhorar o acompanhamento das cadernetas são algumas das iniciativas que podem facilitar o acesso.
O que o Brasil pode aprender com a experiência francesa
O Brasil, que construiu reconhecimento internacional com o Programa Nacional de Imunizações (PNI), também enfrentou uma queda na cobertura de diversas vacinas a partir de 2015, agravada durante a pandemia de Covid-19. Nos últimos anos, alguns índices apresentaram recuperação, mas ainda existem desafios para manter a vacinação em níveis considerados ideais.
Um exemplo é a primeira dose da vacina tríplice viral, que protege contra sarampo, caxumba e rubéola. A cobertura brasileira caiu de 96% em 2015 para 74% em 2021, antes de voltar a 95% em 2024, segundo os dados apresentados na reportagem. A continuidade da vacinação e a aplicação das doses seguintes permanecem fundamentais para garantir a proteção.
Entre as medidas apontadas por especialistas estão o fortalecimento do SUS, a vacinação nas escolas, a atualização dos registros digitais e a ampliação das estratégias para alcançar famílias com dificuldades de acesso. Também é importante manter uma comunicação clara, sem transformar a imunização em disputa política.
A experiência da França reforça que campanhas de conscientização, embora necessárias, não resolvem sozinhas todos os problemas. Para aumentar a cobertura vacinal, é preciso garantir que as pessoas encontrem informações confiáveis, tenham suas dúvidas esclarecidas e consigam receber as doses sem obstáculos desnecessários. Em muitos casos, organizar melhor o caminho até a vacinação pode ser tão decisivo quanto convencer alguém sobre sua importância.




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