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Efeito BYD: Brasil se torna laboratório de empresas chinesas

Expansão de montadoras e investimentos da China impulsiona mudanças na indústria automotiva brasileira, gera empregos e aproxima os dois países, mas também levanta debates sobre condições de trabalho e dependência econômica.


Efeito BYD: Brasil se torna laboratório de empresas chinesas Foto: Vitor Serrano/BBC

A chegada da montadora chinesa BYD à Bahia simboliza uma transformação na indústria automotiva brasileira e o avanço da China no mercado global de veículos elétricos. Instalada em Camaçari, na Região Metropolitana de Salvador, a fábrica ocupa o espaço onde funcionava uma unidade da Ford, encerrada em 2021, e representa uma nova fase da presença industrial chinesa no país.

Inaugurada em 2025, a unidade já produziu mais de 100 mil veículos montados com kits importados. A fabricação nacional está prevista para começar no fim de 2026. Segundo a empresa, a fábrica reúne 7.618 funcionários diretos, dos quais cerca de 6% são estrangeiros, em sua maioria chineses.

A presença desses trabalhadores também vem provocando mudanças na rotina da cidade. Imóveis alugados, restaurantes com pratos chineses e o interesse pelo aprendizado do mandarim são alguns dos sinais dessa aproximação cultural. Apesar disso, a circulação de informações falsas sobre uma suposta chegada de milhares de chineses a Camaçari alimentou debates nas redes sociais.

A expansão da BYD faz parte de uma estratégia mais ampla da China para conquistar espaço no setor automotivo. O país investiu em eletrificação, pesquisa, inovação e produção em larga escala, além de desenvolver cadeias produtivas capazes de fabricar boa parte dos componentes utilizados nos veículos. Essa estrutura ajudou as montadoras chinesas a oferecer modelos competitivos e pressionar os preços no mercado internacional.

O Brasil se tornou um destino estratégico para esses investimentos por reunir um grande mercado consumidor, disponibilidade de matérias-primas importantes para baterias, energia renovável e mão de obra qualificada. Além da BYD, outras empresas chinesas, como GWM e Geely, também ampliaram sua presença no setor automotivo brasileiro.

A concorrência tem contribuído para mudanças nos preços e nos equipamentos oferecidos aos consumidores. Levantamento da consultoria Bright Consulting apontou que, até junho de 2026, o preço médio de transação dos veículos leves novos havia recuado 3,5%, chegando a R$ 152,1 mil. A entrada de novas marcas também vem alterando a percepção dos brasileiros sobre os automóveis fabricados na China.

Por outro lado, a expansão industrial trouxe questionamentos sobre as condições de trabalho. Representantes sindicais relatam aumento de reclamações envolvendo pressão e assédio moral dentro da BYD. O Ministério Público do Trabalho investigou denúncias apresentadas pelo sindicato, mas arquivou recentemente o procedimento por falta de provas. Em nota, a empresa afirmou que não tolera assédio ou discriminação e que mantém canais confidenciais para receber denúncias.

Outro episódio relevante ocorreu durante a construção da fábrica, quando 163 trabalhadores chineses foram resgatados em condições análogas à escravidão. Segundo o Ministério Público do Trabalho, foram identificadas irregularidades como retenção de passaportes, restrição de liberdade e alojamentos degradantes. Posteriormente, foi firmado um acordo de R$ 40 milhões com empresas terceirizadas para encerrar o processo relacionado aos fatos apurados.

A aproximação entre Brasil e China vai além dos automóveis. O país asiático ampliou investimentos em diferentes setores e se consolidou como um dos principais parceiros comerciais brasileiros. O número de autorizações de residência para trabalho concedidas a cidadãos chineses no Brasil triplicou entre 2023 e 2025, passando de aproximadamente 3 mil para 10 mil.

Especialistas avaliam que o desafio brasileiro será aproveitar os investimentos para ampliar a infraestrutura, diversificar a indústria e desenvolver tecnologia própria, evitando uma nova relação de dependência econômica. Em meio à disputa global entre China e Estados Unidos, o Brasil busca fortalecer suas parcerias internacionais sem abrir mão de seus interesses estratégicos.

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