Menopausa: medo da terapia hormonal pode afastar mulheres de um tratamento eficaz
Mudanças nos alertas de segurança nos Estados Unidos reacendem debate sobre os benefícios e riscos da reposição hormonal; especialistas defendem avaliação individualizada e acompanhamento médico
Foto: Getty Images O medo dos efeitos colaterais, especialmente do câncer de mama, ainda leva muitas mulheres a evitar a terapia hormonal durante a menopausa. No entanto, especialistas ouvidos pela BBC News Brasil afirmam que, para pacientes com indicação médica, os benefícios do tratamento podem superar os riscos, principalmente no alívio de sintomas que comprometem a qualidade de vida.
O debate ganhou força após a agência reguladora de medicamentos dos Estados Unidos, a FDA, retirar o alerta mais grave dos rótulos de alguns medicamentos utilizados na terapia hormonal da menopausa. A mudança busca atualizar as informações sobre os riscos associados ao tratamento, mas não significa que os hormônios sejam isentos de efeitos adversos ou indicados para todas as mulheres.
A terapia hormonal consiste, principalmente, na reposição de estrogênio, isolado ou combinado com progesterona, para aliviar sintomas relacionados à queda hormonal nessa fase da vida. Entre os mais comuns estão ondas de calor, suor noturno, dificuldades para dormir, ressecamento vaginal e desconforto durante as relações sexuais.
No Brasil, aproximadamente 33 milhões de mulheres têm entre 40 e 65 anos, faixa etária em que muitas passam pelo climatério e pela menopausa. Apesar da frequência dos sintomas, o acesso ao tratamento ainda é limitado. Um estudo brasileiro publicado em 2022, com 1.500 participantes, apontou que apenas 22,3% das mulheres que receberam prescrição de medicamentos para sintomas da menopausa foram indicadas à terapia hormonal.
Parte do receio atual está relacionado a um estudo publicado em 2002, conhecido como Women's Health Initiative (WHI), que associou determinados esquemas de terapia hormonal a um aumento do risco de câncer de mama e outros problemas de saúde. A divulgação dos resultados provocou uma queda expressiva no uso do tratamento em diversos países.
Pesquisas posteriores ajudaram a esclarecer que os riscos variam conforme a idade da paciente, o tempo transcorrido desde a menopausa, o tipo de hormônio utilizado, a dose e o histórico de saúde. Por isso, especialistas ressaltam que os resultados não devem ser interpretados como uma condenação geral à terapia hormonal, mas também não justificam seu uso indiscriminado.
O risco de câncer de mama merece atenção, especialmente em tratamentos que combinam determinados tipos de estrogênio e progesterona. Mulheres que têm ou tiveram câncer de mama geralmente não devem utilizar a terapia hormonal sistêmica, salvo situações excepcionais avaliadas por especialistas. A presença de casos da doença na família, por outro lado, não representa automaticamente uma contraindicação, embora exija avaliação individualizada.
Outras condições também podem impedir ou restringir o tratamento, como histórico de determinados eventos cardiovasculares, trombose e doenças hepáticas em atividade. Antes de iniciar a terapia, o médico deve analisar os antecedentes pessoais e familiares, os fatores de risco e a intensidade dos sintomas, além de orientar os exames necessários para o acompanhamento.
A indicação costuma ser mais favorável para mulheres que apresentam sintomas importantes e estão próximas do início da menopausa, especialmente nos primeiros dez anos após a última menstruação. Ainda assim, o momento de começar, a duração do tratamento e a possibilidade de continuar usando hormônios precisam ser reavaliados periodicamente.
Os especialistas também alertam que a terapia hormonal não deve ser prescrita simplesmente para melhorar a aparência, combater o envelhecimento ou aumentar a disposição. A baixa libido, por exemplo, pode estar relacionada a diferentes fatores físicos, emocionais e sociais, e exige uma investigação cuidadosa antes da definição de qualquer tratamento.
A experiência das mulheres mostra que os resultados podem variar. Algumas relatam melhora significativa das ondas de calor e do sono, enquanto outras apresentam efeitos adversos e preferem interromper o uso. Por isso, a decisão deve ser compartilhada entre paciente e médico, considerando os benefícios esperados, os riscos individuais e as alternativas disponíveis.
Outro obstáculo no Brasil é o acesso aos medicamentos. Segundo especialistas ouvidos pela BBC News Brasil, muitas mulheres recebem a indicação, mas não iniciam ou não conseguem manter o tratamento devido aos custos, já que a terapia hormonal não está amplamente disponível de forma gratuita no Sistema Único de Saúde (SUS).
A principal recomendação é que mulheres com sintomas da menopausa procurem orientação médica antes de iniciar ou descartar a terapia hormonal. O tratamento pode trazer benefícios importantes para quem tem indicação, mas exige acompanhamento e não deve ser utilizado sem avaliação profissional.




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