Espanha enfrenta crise de moradia após anos de excesso de construções
País construiu milhões de imóveis antes da crise de 2008, mas redução das obras, crescimento populacional e avanço dos aluguéis turísticos provocaram um forte déficit habitacional
Foto: Andrey Rudakov/Bloomberg via Getty Images (BBC) A Espanha vive uma situação que, à primeira vista, parece difícil de explicar: o país construiu milhões de casas e apartamentos durante o período de expansão imobiliária e, hoje, enfrenta uma das maiores crises de moradia de sua história. Entre 1997 e 2008, foram construídas cerca de cinco milhões de residências no país, aproximadamente o dobro da demanda existente na época. O cenário mudou completamente após a crise financeira de 2008, que provocou o estouro da bolha imobiliária espanhola, reduziu o crédito e atingiu fortemente o setor da construção civil.
Muitas empresas desapareceram, obras foram interrompidas e o ritmo de novas construções despencou. Segundo especialistas, essa mudança ajuda a explicar parte importante do problema enfrentado atualmente. A Espanha constrói hoje cerca de 90 mil residências por ano, enquanto o déficit habitacional já chega a aproximadamente 750 mil imóveis, segundo dados do Banco da Espanha. A estimativa é de que esse número possa ultrapassar um milhão nos próximos dois anos caso novas medidas não sejam adotadas.
Ao mesmo tempo em que a construção diminuiu, a população continuou crescendo. Desde 2021, a formação de novos lares aumentou, impulsionada principalmente pela imigração. Atualmente, cerca de 250 mil novos lares são formados por ano, enquanto a quantidade de moradias construídas representa apenas uma parcela dessa demanda.
O resultado é uma disputa cada vez maior pelos imóveis disponíveis. Desde 2015, os preços das casas e dos aluguéis aumentaram cerca de 80%, enquanto os salários cresceram apenas 30%, segundo dados do Instituto Nacional de Estatísticas da Espanha.
Para os jovens, o impacto é ainda mais evidente. Cerca de 47,3% dos espanhóis entre 26 e 34 anos ainda vivem com os pais. Muitos afirmam que não conseguem deixar a casa da família porque os valores cobrados para comprar ou alugar um imóvel estão acima de suas possibilidades.
O turismo também passou a exercer pressão sobre o mercado. Muitos proprietários passaram a preferir o aluguel de curta duração para turistas, especialmente em cidades muito procuradas por visitantes estrangeiros. Em 2025, a Espanha recebeu 96,8 milhões de turistas internacionais, aumentando a procura por imóveis destinados a hospedagens temporárias.
Isso significa que parte das residências deixou de estar disponível para famílias que procuram uma moradia permanente. O problema é ainda mais forte em grandes cidades e regiões turísticas, onde a procura é elevada.
Outro fator que chama atenção é a existência de aproximadamente 3,8 milhões de imóveis vazios no país. Segundo especialistas, porém, grande parte dessas residências está localizada em áreas onde a população diminuiu, longe dos principais centros de emprego e oportunidades. Por isso, esses imóveis não conseguem atender à demanda das regiões que mais precisam de novas moradias.
A crise voltou ao centro do debate nacional após o caso de Maricarmen Abascal, uma aposentada de 87 anos que viveu durante cerca de sete décadas em um apartamento alugado no centro de Madri. A idosa precisou ser retirada do imóvel por paramédicos durante um processo de despejo, em uma situação que provocou comoção e novos protestos pelo país.
O episódio aconteceu justamente em meio a manifestações de milhares de pessoas contra o alto custo da moradia e a falta de proteção aos inquilinos. A pressão aumentou depois que o Parlamento espanhol rejeitou uma proposta emergencial do governo para tentar amenizar a crise.
Especialistas apontam que não existe uma única causa para o problema. A redução drástica da construção depois de 2008, o crescimento da população, o aumento dos preços, a concentração da demanda nas grandes cidades e o avanço dos aluguéis turísticos formam uma combinação que tornou o acesso à moradia cada vez mais difícil.
O desafio agora é aumentar a oferta de imóveis justamente em um momento em que o setor da construção ainda não recuperou a capacidade que tinha antes da crise financeira. Para os especialistas, reconstruir essa capacidade pode levar anos, enquanto a necessidade de novas moradias cresce em ritmo acelerado.
A crise espanhola mostra, assim, como o excesso de construção em um determinado período não garante que um país terá moradias suficientes no futuro. O problema não está apenas na quantidade de casas existentes, mas também em onde elas estão, quem consegue pagar por elas e para qual finalidade são utilizadas.




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