Sandra de Angelis
Comece olhando o individual, depois, o coletivo
Os adultos subvertidos em seus interesses sórdidos aniquilam a vida humana, mas os discursos políticos de quem tem a eloquência e a audiência não passam nem perto da raiz dos abusos e da violência.
O poeta romano Ovídio havia escrito que o ‘sucesso valida o ato’. Nascido em 43 a.C., influenciou Dante e Shakespeare. Maquiavel era um filósofo também italiano, que nasceu 1.500 anos após Ovídio e sua obra deixou legados para os padrões políticos que conhecemos hoje. “O Príncipe”, por exemplo, é quase um “manual de sobrevivência” para quem está ou quer entrar na política, na minha modestíssima opinião. No livro, ele se apropria do mandato de Ovídio e que hoje ganha novo contorno que todos já ouvimos em algum momento - OS FINS JUSTIFICAM OS MEIOS.
Após esse preâmbulo, vamos ao ponto. Trump invadiu a Venezuela, catou Nicolás Maduro pelos colarinhos e o levou preso para Nova Iorque, sob acusação de narcotráfico internacional.
Do particular para o coletivo
Milhares de pessoas que não têm nada a ver com o cenário geopolítico comemoraram a quebra de protocolo do Direito Internacional, porque há mais de duas décadas vêm sofrendo as agruras de um ditador bolivariano que aniquilou o país.
Foram mais de 8 milhões de pessoas que fugiram da Venezuela, em busca de uma vida minimamente íntegra. Quem conhece apenas UMA PESSOA refugiada, seja de que parte do mundo tenha vindo, saberá do que estou falando. Trata-se de uma pessoa com sequelas da alma irrevogáveis. Se for criança, então, nem podemos imaginar o estrago estrutural que o refúgio e as circunstâncias que permearam a fuga de seu país causou na alma daquele ser humano frágil.
Na dimensão onde vivem os analistas, pensadores, estrategistas, as peças de um “tabuleiro” são apenas “peças”, pois o que interessa é o todo. Não sou nada disso... posso inverter a análise, certo?
Do indivíduo para o coletivo
Pois seguindo o raciocínio do particular para o coletivo, em 2019 eu tive a oportunidade de conhecer a pequena Everiany, uma menina indígena venezuelana de 7 anos, em refúgio, que veio parar em Roraima, com a irmãzinha de 1,4 ano e a mãe, de uns 25 anos, que havia fugido também de um relacionamento abusivo.
A família foi trazida às pressas para São Paulo onde Everiany foi submetida a um transplante de córnea de emergência, no Hospital de Olhos de Sorocaba, numa tentativa desesperada de lhe salvarem, pelo menos, um dos olhos. O outro já estava perdido. A causa da cegueira foi um sarampo associado a uma desnutrição que lhe atingiu os olhos fatalmente. Sua tribo fora brutalmente expulsa de suas terras pelas forças políticas sob comando do genocida Nicolás Maduro.
ESTE É o MEU ÍCONE para aplaudir a ação do Trump. Em nome das Everianys da vida, em nome de tantos outros venezuelanos que conheci em meio a um trabalho realizado junto à Fraternidade – Federação Humanitária Internacional (FFHI), que atua na linha de frente da Operação Acolhida, em Roraima e em Manaus, eu quero, mesmo, que Maduro apodreça na cadeia.
Não sei se as pessoas sabem, mas a cognição dos indígenas tem peculiaridades que os fragilizam no contexto dito “civilizado”. Então, centenas desses expatriados indígenas vagaram a esmo, até serem acolhidos em Boa Vista, pois seu ambiente, sua terra legítima, haviam sido expropriados para atender a interesses bolivarianos da ditadura vigente no território venezuelano.
Ainda não sei o que aconteceu com a pequena Everiany, que ainda não tinha sido alfabetizada, mas já mostrava uma inteligência acima da média. Na entrevista que fiz com sua mãe, ela imediatamente assumiu o papel de tradutora e intérprete, me ajudando a apurar as informações que a mãe me passava.
Em nome desta pequena e de sua família, manifesto meu total apoio ao povo venezuelano e em especial, ao povo indígena.
No discurso dos esquerdistas indignados ante a ação de Trump, meto-lhes o dedo na cara e lhes pergunto:
ONDE ESTAVAM VOCÊS E SUA INDIGNAÇÃO SELETIVA, ENQUANTO AS ABERRAÇÕES DITATORIAIS VINHAM SENDO PRATICADAS?
O ex-ditador e agora, preso, esteve no Brasil e foi recebido com honras de chefe de Estado pelo presidente Lulla…que cheio de bravatas pseudo democráticas, hoje sai em defesa do Direito Internacional, mas há décadas ‘passa pano’ nos desmandos humanitários que vinham sendo cometidos naquele país.
Aqui, conclamo à reflexão para a inversão da lógica do Direito Internacional. Primeiro vejamos os indivíduos, o povo, a base social, depois olhamos para quem e o que foi corrompido, com a atrevida investida de Trump.
E mais, que este episódio nos traga a determinação de buscar a paz, não dos políticos ou ditadores, mas dos povos, especialmente, das CRIANÇAS. Isso vale para os morros do Rio de Janeiro e das regiões tomadas pela criminalidade e pelo tráfico, isso vale para as zonas de guerra, isso vale para a Humanidade.
Os adultos subvertidos em seus interesses sórdidos aniquilam a vida humana, mas os discursos políticos de quem tem a eloquência e a audiência não passam nem perto da raiz dos abusos e da violência praticados rotineiramente, tão recorrentes que viram óbvios.




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