Violência política contra mulheres cresce e acende alerta durante período eleitoral
Levantamentos apontam aumento de agressões, ameaças e ataques contra candidatas; mulheres negras concentram mais da metade das denúncias registradas pelo Disque 180
Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil A violência política contra mulheres tem ganhado destaque no Brasil em meio ao período eleitoral. Dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) mostram que os processos relacionados a esse tipo de agressão passaram de 15, em 2022, para 177, em 2026, um aumento de mais de 11 vezes. Os números reforçam a preocupação com os obstáculos enfrentados por mulheres que buscam espaço na política e na vida pública.
Neste sábado (10), o Dia Nacional de Luta contra a Violência à Mulher chama a atenção para a importância do enfrentamento às diferentes formas de agressão e da garantia de direitos. A data remete a uma mobilização realizada em 1980, quando mulheres se reuniram nas escadarias do Teatro Municipal de São Paulo para protestar contra o crescimento dos crimes de gênero no país.
Um levantamento das organizações Terra de Direitos e Justiça Global identificou 134 casos de violência política durante a campanha eleitoral até o primeiro turno, realizado no último domingo (4). Desse total, 70 ocorrências, o equivalente a 52,2%, tiveram mulheres como vítimas. Entre os 102 episódios direcionados exclusivamente a candidatos, 60 atingiram mulheres, mesmo que elas representem aproximadamente um terço das candidaturas.
Os dados do Disque 180 também revelam a dimensão do problema. Entre janeiro e agosto de 2026, foram registradas 1.564 denúncias de violência política contra mulheres. Desse total, 842 casos, mais de 53%, envolveram mulheres pretas e pardas. Outras 590 denúncias foram relacionadas a mulheres brancas, enquanto 132 envolveram mulheres de outros grupos raciais.
As agressões relatadas incluem violência física e verbal, ataques machistas e racistas, ameaças de morte e violência sexual. Em alguns casos, a exposição de informações pessoais, como endereço residencial e telefone, amplia os riscos enfrentados pelas vítimas e exige medidas adicionais de proteção.
Um dos episódios recentes envolve a deputada federal eleita Ana Elisa Santos Silva, do PT de Minas Gerais, de 21 anos. Ela denunciou à Polícia Civil ameaças de morte e violência sexual recebidas durante a campanha. Segundo a parlamentar, as mensagens também continham ataques machistas e racistas, além da divulgação de dados pessoais. Diante da situação, seu partido contratou segurança armada para protegê-la.
A secretária Nacional de Articulação Intersetorial e Interfederativa e Participação Política do Ministério das Mulheres, Sandra Kennedy, relaciona a violência política à persistência da misoginia, da violência doméstica e de outras formas de discriminação contra mulheres. Segundo ela, as agressões podem ocorrer tanto por meio de ameaças graves quanto em situações cotidianas que buscam desestimular a participação feminina nos espaços de poder.
O histórico brasileiro reúne outros episódios emblemáticos, como o assassinato da vereadora Marielle Franco, em 2018, no Rio de Janeiro; a importunação sexual sofrida pela então deputada estadual Isa Penna durante uma sessão da Assembleia Legislativa de São Paulo, em 2020; e as ameaças relatadas por parlamentares que necessitam de proteção para exercer seus mandatos.
O enfrentamento à violência política de gênero envolve a atuação de instituições públicas, órgãos eleitorais e entidades de defesa dos direitos humanos. Mulheres vítimas de agressões e pessoas que tenham conhecimento desses casos podem procurar o Ministério Público Eleitoral, a Justiça Eleitoral, a Polícia Civil ou a Polícia Federal.
As denúncias também podem ser feitas pelo Disque 180, serviço gratuito, sigiloso e disponível 24 horas por dia. O canal oferece orientação e acolhimento a mulheres em situação de violência. Em casos de emergência, a Polícia Militar pode ser acionada pelo telefone 190.
O aumento dos registros reforça a necessidade de medidas de prevenção, investigação e responsabilização, além de iniciativas que garantam às mulheres condições de participar da política sem sofrer intimidação, discriminação ou ameaças à própria segurança.




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