Debate entre Lula e Flávio Bolsonaro tem declarações sobre economia, segurança e programas sociais checadas
Verificação analisou afirmações sobre dívida pública, Bolsa Família, tarifas dos Estados Unidos, condenações judiciais, feminicídios, contas do governo e Mais Médicos durante o debate presidencial do segundo turno.
Foto: Renato Pizzutto/Band O debate entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), realizado na noite de domingo (18), colocou em discussão temas como economia, programas sociais, relações internacionais, segurança pública e políticas de saúde. Durante o encontro, diversas declarações dos candidatos foram submetidas a uma checagem de informações para verificar se os dados apresentados correspondiam aos registros oficiais.
Uma das afirmações consideradas verdadeiras foi a de Flávio Bolsonaro sobre a dívida pública. Segundo dados do Banco Central referentes a agosto de 2026, a Dívida Bruta do Governo Geral chegou a R$ 11,1 trilhões, o equivalente a 82,9% do Produto Interno Bruto (PIB). O indicador, porém, inclui as dívidas do governo federal, do INSS, dos estados e dos municípios, não se restringindo exclusivamente à administração federal. Em dezembro de 2022, o valor era de R$ 7,2 trilhões, ou 73,5% do PIB.
A declaração de Flávio sobre o aumento do Bolsa Família para R$ 600 foi classificada como parcialmente correta. O benefício mínimo chegou a esse valor em 2022, durante o governo de Jair Bolsonaro, mas o processo envolveu tanto o Executivo quanto o Congresso Nacional. Inicialmente, uma medida provisória elevou o benefício para pelo menos R$ 400. Posteriormente, uma emenda constitucional aprovada pelo Congresso acrescentou R$ 200 entre agosto e dezembro daquele ano.
Outro ponto analisado foi a afirmação de que o governo Lula não enviou representantes aos Estados Unidos para defender os produtos brasileiros durante a disputa comercial. A declaração foi considerada falsa. Houve contatos diplomáticos entre os dois países, incluindo uma reunião do ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, com o secretário de Estado americano, Marco Rubio, além de uma conversa entre Lula e Donald Trump. Em maio de 2026, Lula também esteve na Casa Branca acompanhado de ministros para discutir, entre outros assuntos, as tarifas comerciais.
A análise, entretanto, diferencia essas negociações da participação em audiências públicas promovidas pelo governo americano. Flávio Bolsonaro discursou em uma dessas audiências em julho de 2026, por iniciativa própria, sem representar oficialmente o Ministério das Relações Exteriores brasileiro. A embaixada do Brasil enviou representantes como observadores, enquanto o governo priorizou negociações diplomáticas e técnicas.
No campo judicial, a afirmação de Flávio Bolsonaro de que Lula havia sido condenado em primeira e segunda instâncias e no Superior Tribunal de Justiça (STJ) foi considerada verdadeira em relação aos processos do tríplex do Guarujá e do sítio de Atibaia, no âmbito da Operação Lava Jato. As condenações foram posteriormente anuladas pelo Supremo Tribunal Federal (STF), que reconheceu a incompetência da 13ª Vara Federal de Curitiba para julgar os casos.
Já a afirmação de que Lula havia sido condenado pelo próprio STF foi classificada como falsa. A Corte não condenou o atual presidente nesses processos. Em 2021, as condenações foram anuladas, e o tribunal também reconheceu a parcialidade do então juiz Sergio Moro no caso do tríplex.
A discussão sobre segurança pública incluiu os índices de violência contra as mulheres. A afirmação de que o Brasil registrou um recorde de feminicídios foi considerada verdadeira. Dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública apontaram 1.571 casos em 2025, aumento de 4% em relação aos 1.504 registros de 2024. O número foi o maior desde 2015, quando o feminicídio passou a ser tipificado como crime específico.
O levantamento também registrou aumento de outros indicadores de violência contra mulheres em 2025. As tentativas de feminicídio cresceram 6%, os descumprimentos de medidas protetivas aumentaram 17% e os casos de perseguição, conhecidos como stalking, tiveram alta de 30%. Apesar disso, o total de assassinatos de mulheres por todas as motivações caiu 5,5% no período, somando 3.539 vítimas.
Entre as declarações de Lula, uma das consideradas verdadeiras foi a de que seu governo registrou superávit primário nos oito anos de seus dois primeiros mandatos, entre 2003 e 2010. O resultado primário representa a diferença entre receitas e despesas públicas, sem considerar os juros da dívida. Os dados do Tesouro Nacional indicam resultados positivos nesse período.
A afirmação de que o Brasil obteve duas elevações de classificação de risco durante o segundo mandato de Lula foi considerada parcialmente correta. O país passou por duas etapas de melhoria nas avaliações das principais agências internacionais. Entretanto, somente na segunda etapa, em 2008, alcançou o chamado grau de investimento, classificação que indica menor risco de crédito para investidores.
Também foi considerada falsa a afirmação de que o governo de Jair Bolsonaro deixou um déficit primário de 2,8% do PIB ao final de 2022. Segundo dados do Tesouro Nacional, o resultado daquele ano foi um superávit de R$ 46,4 bilhões, equivalente a 0,5% do PIB. Já em 2023, primeiro ano do terceiro mandato de Lula, o resultado primário foi deficitário em R$ 228,5 bilhões, ou 2,1% do PIB.
Na área da saúde, a declaração de Lula sobre o crescimento do número de profissionais vinculados ao Mais Médicos foi considerada verdadeira. Dados do Ministério da Saúde indicam que o país tinha 13.716 profissionais no conjunto dos programas Mais Médicos e Médicos pelo Brasil em dezembro de 2022. Em outubro de 2026, o total em atividade chegou a 26.660, embora ainda houvesse vagas disponíveis e outras em processo de ocupação.
As verificações mostram que as declarações dos candidatos abordaram dados reais, mas também apresentaram diferenças de contexto, períodos e abrangência. Em temas como dívida pública, benefícios sociais, contas governamentais e políticas de saúde, a interpretação correta depende da identificação dos indicadores utilizados e da distinção entre medidas adotadas pelo Executivo e decisões tomadas pelo Congresso.




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