Lívia Ikeda Martins
Paraty: entre memórias coloniais, tradições populares e consciência sustentável
Entre ruas de pedra, histórias coloniais e práticas sustentáveis, Paraty revela sua essência: um encontro entre memória, cultura popular e consciência ambiental
Rua do centro histórico de Paraty, RJPassei o domingo de carnaval — 15 de fevereiro de 2026 — em Paraty, Rio de Janeiro, e a cidade estava ainda mais vibrante do que de costume. O centro histórico, com suas ruas de pedras, mantinha o charme colonial, contrastando com as charretes que circulavam tranquilamente. Foi dentro de uma delas, conduzida pelo simpático Seu Gilson e pelo cavalo Ventania, que tive uma verdadeira aula de história. Entre uma curva e outra, ele me contava sobre os segredos da cidade, os costumes antigos e as curiosidades que só quem vive ali conhece.
Enquanto os cavalos seguiam calmamente — animais bem cuidados, que têm até períodos de descanso e férias — eu me deixava levar pelas histórias de Seu Gilson. Ele falava com orgulho da preservação das ruas de pedras, da importância do mar para o desenvolvimento da cidade e das tradições que ainda ecoam no cotidiano de Paraty. Mais do que um passeio turístico, foi como se eu tivesse mergulhado em um livro vivo, guiado por alguém que conhece cada página dessa história.
Raízes históricas
Durante essa aula ao ar livre, Seu Gilson me contou que Paraty começou a ser povoada por volta de 1630, em terras originalmente habitadas pelos índios Guaianás. Os portugueses, vindos de São Vicente, aproveitaram trilhas indígenas para abrir o chamado Caminho do Ouro, que ligava o litoral à região do Vale do Paraíba e, posteriormente, às minas de ouro em Minas Gerais. Esse caminho foi fundamental para o desenvolvimento da cidade, transformando-a em um elo vital entre o interior e o porto, de onde o ouro seguia para Lisboa.
No século XVIII, Paraty viveu seu auge econômico com o ciclo do ouro e da cana-de-açúcar. A cidade chegou a ter dezenas de engenhos em funcionamento, consolidando sua relevância na economia colonial. Esse período de prosperidade também trouxe vulnerabilidades: ataques de piratas eram frequentes, o que levou à construção de fortificações como o Forte Defensor Perpétuo, hoje transformado em museu.
O mar como protagonista
Durante o caminho percorrido pela charrete, Seu Gilson contou que o mar sempre foi o grande protagonista da história de Paraty. Localizada na Costa Verde, entre a serra e o oceano, a cidade se desenvolveu em íntima relação com as águas. O traçado urbano do século XVIII foi projetado de forma que a maré alta invadisse periodicamente as ruas do centro histórico, lavando de forma natural o calçamento de pedras. Esse fenômeno ainda pode ser observado nas luas cheia e nova, criando espelhos d’água que refletem os casarões coloniais e reforçam a atmosfera única da cidade.
Além de sua função prática, o mar foi o canal por onde chegaram riquezas, mercadorias e influências culturais. Foi através dele que Paraty se conectou ao comércio internacional, tornando-se rota de escoamento do ouro e da produção agrícola. Essa ligação marítima também explica a localização estratégica da casa da família real Orleans e Bragança, construída de frente para o oceano, símbolo da elite imperial que determinava regras urbanísticas para preservar sua vista privilegiada.
Histórias marcantes
Entre histórias, Seu Gilson contou alguns episódios curiosos que Paraty guarda e que revelam tanto sua riqueza cultural, quanto o cotidiano popular. Um deles é a origem do doce “pé-de-moleque”. Durante o período da escravidão, as mulheres escravizadas costumavam deixar o melado esfriando nas janelas das casas. Quando os meninos da vila passavam, colocavam o dedo dentro da panela para provar o doce. Ao perceberem, as mulheres chamavam sua atenção e eles saíam correndo. Nesse momento, elas gritavam: “pede, moleque! Se pedir eu dou!”. Daí surgiu o nome do doce brasileiro, consumido até hoje nas festividades juninas. Curiosamente, o formato do doce lembra as pedras de sabão que calçavam o chão da cidade de Paraty na época da escravidão, reforçando o vínculo entre cultura alimentar e memória urbana.
Outro aspecto marcante é a expressão “sem eira nem beira”, associada à desigualdade social refletida na arquitetura colonial. As casas mais humildes tinham apenas um telhado simples, enquanto as residências da elite ostentavam três partes distintas: eira, beira e tribeira. Assim, quem vivia em casas simples era considerado “sem eira nem beira”, expressão que passou a significar pobreza ou falta de posses. A tradição oral em Paraty associa essa distinção também às comunidades maçônicas locais, reforçando o caráter simbólico da cidade. Já a expressão “feito nas coxas” remete ao processo artesanal de fabricação das telhas coloniais, moldadas sobre as coxas das mulheres escravizadas, o que gerava peças irregulares. Daí surgiu o uso figurado para designar algo feito de maneira descuidada ou mal-acabada.
Sustentabilidade e modernidade
Hoje, Paraty se reinventa como centro turístico e cultural. O comércio local reforça sua identidade sustentável, com lojas e ateliês oferecendo produtos biodegradáveis, feitos de materiais recicláveis ou compostos orgânicos. Essa consciência verde se mistura com o azul intenso do mar e com o patrimônio arquitetônico, criando uma atmosfera única.
Reflexo da riqueza nacional
Essa aula improvisada sobre rodas e sobre as quatro patas de Ventania me fez enxergar que Paraty transcende os limites de uma cidade histórica: ela é reflexo da diversidade e da complexidade do Estado do Rio de Janeiro e do Brasil. Ao mesmo tempo em que guarda lembranças de prosperidade — como o ciclo do ouro e da cana-de-açúcar —, carrega também marcas de sofrimento, como a escravidão e as desigualdades sociais. Paraty é, portanto, um lembrete vivo de que nossa verdadeira riqueza não está apenas nos recursos naturais ou na herança arquitetônica, mas na capacidade de preservar, aprender e transformar o passado em inspiração para o futuro.




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