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Desaceleração brusca e efeito chicote: como montanha-russa pode causar lesões neurológicas

Movimentos intensos de aceleração, desaceleração e rotação podem afetar cérebro e coluna; casos graves são considerados raros por especialistas


Desaceleração brusca e efeito chicote: como montanha-russa pode causar lesões neurológicas Foto: Fantástico/Adobe Stock

Uma jovem que perdeu parte dos movimentos do corpo após andar em uma montanha-russa do Hopi Hari, em Vinhedo, no interior de São Paulo, teve hemorragia intracraniana e um grande edema cerebral. O caso, que está sendo investigado pelo Ministério Público de São Paulo, chamou atenção para os possíveis efeitos de movimentos bruscos de aceleração, desaceleração e rotação sobre o cérebro e a coluna.

Segundo especialistas ouvidos sobre o caso, uma pessoa não precisa necessariamente bater a cabeça para sofrer uma lesão neurológica. Durante uma desaceleração repentina, o cérebro pode continuar se movimentando dentro do crânio e atingir suas paredes internas. Dependendo da intensidade das forças envolvidas, também podem ocorrer alterações nos vasos sanguíneos e nas estruturas responsáveis pela comunicação entre os neurônios.

O neurologista Renato Anghinah explica que esse mecanismo pode provocar o deslocamento do cérebro dentro do crânio e, em situações mais graves, afetar os axônios, estruturas que conectam os neurônios. Quando essas estruturas são esticadas, rompidas ou danificadas, pode ocorrer uma lesão axonal difusa.

Outro mecanismo associado a movimentos bruscos é o chamado efeito chicote. Ele acontece quando a cabeça é projetada rapidamente para trás e depois para frente, em um movimento semelhante ao observado em determinadas colisões de veículos. A região mais afetada costuma ser a coluna cervical, que possui grande mobilidade.

De acordo com o neurocirurgião Helder Picarelli, lesões cervicais são uma das principais preocupações relacionadas a esse tipo de movimento. Elas podem envolver músculos e ligamentos ou agravar problemas preexistentes na coluna. Em situações excepcionais, porém, também podem ocorrer traumatismos intracranianos e lesões vasculares.

O movimento brusco do pescoço também pode contribuir para a chamada dissecção arterial, quando ocorre um esgarçamento na parede de uma artéria. Dependendo da região afetada e da intensidade do problema, a alteração pode comprometer o fluxo de sangue para o cérebro e levar a um acidente vascular cerebral (AVC).

Mecanismos semelhantes de aceleração e desaceleração podem aparecer em diferentes situações, como acidentes de carro, explosões e determinadas modalidades esportivas. No futebol americano, por exemplo, atletas podem ser submetidos a forças intensas quando estão em alta velocidade e sofrem uma interrupção repentina do movimento durante uma colisão.

O caso que motivou a investigação ocorreu em abril. Júlia e João Pedro Bossoni viajaram de Londrina, no Paraná, para visitar o Hopi Hari e decidiram andar na Montezum, uma montanha-russa de madeira inaugurada em 1999. A atração possui cerca de 42 metros de altura e pode alcançar aproximadamente 103 km/h.

O casal fez uma primeira volta na atração sem problemas. Horas depois, voltou à montanha-russa após conseguir um passaporte VIP. Imagens das câmeras do parque mostram Júlia consciente durante a subida. Não há registros de todo o percurso, mas, cerca de dois minutos depois, quando o carrinho retornou à plataforma, ela estava desacordada.

Segundo o marido, a jovem também apresentava convulsões. Júlia foi retirada da atração e encaminhada inicialmente para a Santa Casa de Vinhedo. Devido à gravidade do quadro, foi transferida para uma unidade de terapia intensiva.

Os exames identificaram uma hemorragia intracraniana e um grande edema cerebral. A jovem precisou passar por uma craniectomia descompressiva, procedimento que envolve a retirada temporária de uma parte do crânio para permitir que o cérebro tenha espaço para se expandir durante o inchaço.

Júlia permaneceu 57 dias internada e recebeu diagnóstico de traumatismo cranioencefálico. Segundo o laudo médico citado no caso, o trauma teria sido provocado por um mecanismo de contragolpe durante o passeio. O neurocirurgião Victor Batistela explicou que movimentos intensos de aceleração, desaceleração e rotação podem romper vasos sanguíneos e provocar hemorragias e edema cerebral.

De acordo com a família, Júlia não apresentava doenças preexistentes. Após o episódio, ela perdeu os movimentos do lado esquerdo do corpo, incluindo braço e perna, além de apresentar dificuldades para falar e alterações na memória. Cinco meses depois do acidente, continuava em processo de reabilitação e já havia passado por sete cirurgias.

O caso não é o único relato relacionado à Montezum. Em 2018, Nathalia Assenjo Motta afirmou ter sofrido um movimento brusco no pescoço durante o percurso. Segundo o relato, o deslocamento das vértebras exigiu a colocação de 12 pinos e duas hastes na região cervical. Ela recuperou os movimentos do corpo três dias depois, mas ficou com limitação na mobilidade do pescoço.

Outro episódio citado ocorreu em 2014, quando Márcio ficou tetraplégico depois de andar na atração. Segundo informações apresentadas no caso, houve rompimento de duas vértebras e o movimento de chicote foi apontado como responsável pela lesão neurológica. Ele morreu em 2023 em decorrência de complicações relacionadas a uma infecção urinária.

Também existem relatos na literatura médica de problemas neurológicos associados a passeios em montanhas-russas. Entre eles estão casos de dissecção de artérias, AVC, hematoma subdural e outras lesões. Um estudo publicado em 2020 descreveu uma mulher saudável de 37 anos que apresentou dor no pescoço e na cabeça, tontura e náusea depois de frequentar montanhas-russas e realizar outras atividades que envolviam movimentos no pescoço. Exames identificaram dissecções nas duas artérias vertebrais e múltiplos AVCs isquêmicos.

Uma revisão publicada em 2025 também analisou casos de acidentes cerebrovasculares e neurotraumas relacionados a parques de diversão em crianças e adolescentes. Os pesquisadores identificaram 24 casos documentados, sendo sete envolvendo crianças. Entre as complicações estavam dissecções das artérias carótida e vertebral, AVC e hematoma subdural.

Outro estudo, publicado em 2005, analisou lesões na coluna associadas à montanha-russa Rattler, nos Estados Unidos. Durante aproximadamente 932 mil viagens realizadas no período analisado, foram registradas centenas de relatos de lesões no pescoço e nas costas. Entre os casos considerados significativos, foram identificadas lesões de discos cervicais, problemas na região lombar e fraturas por compressão vertebral.

Apesar dos casos descritos, especialistas destacam que lesões neurológicas graves relacionadas a montanhas-russas são raras e que o risco de AVC em pessoas saudáveis é considerado muito baixo. Pessoas com determinadas condições preexistentes, como alterações vasculares, problemas cervicais ou histórico de traumatismo craniano, podem apresentar maior vulnerabilidade.

Dor de cabeça ou no pescoço que persista após uma atividade com movimentos intensos merece atenção médica, principalmente quando acompanhada de outros sintomas neurológicos. A avaliação profissional é importante para identificar possíveis complicações e determinar a necessidade de exames.

O Hopi Hari informou que a Montezum possui certificação internacional e passa por inspeções periódicas. Segundo o parque, a atração segue as normas nacionais aplicáveis e possui placas e avisos sonoros com orientações e restrições antes do embarque.

A empresa também afirmou que a atração é classificada como radical em razão das forças e movimentos envolvidos e que existem contraindicações para pessoas com determinados problemas de saúde, incluindo condições na coluna e gestação.

Sobre o caso de Júlia, o parque afirmou que prestou atendimento seguindo seus protocolos de segurança, acompanhou o tratamento da jovem e manteve contato com a família. O Ministério Público de São Paulo continua investigando o episódio e solicitou uma perícia na montanha-russa.

A família também busca na Justiça a realização de uma perícia para esclarecer as circunstâncias do acidente. Enquanto o caso é apurado, Júlia segue em processo de recuperação, com sessões de fisioterapia, terapia ocupacional e fonoaudiologia.

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