Agro reavalia relação com candidatos e busca maior independência nas eleições
Lideranças do setor avaliam que associação com disputas políticas trouxe desgaste e defendem separar preferências individuais da representação institucional
A relação entre o agronegócio e a política brasileira passa por uma mudança de postura após duas eleições marcadas pela forte associação do setor a um determinado campo político. Lideranças do agro ouvidas pela reportagem avaliam que essa proximidade trouxe custos para a atividade e defendem uma atuação mais independente nas eleições de 2026 e nos próximos pleitos.
A avaliação, segundo representantes do setor, não significa abandonar posições políticas ou apoiar determinados candidatos. A intenção é evitar que preferências individuais sejam confundidas com uma escolha institucional de todo o agronegócio, que reúne produtores, empresas, cooperativas e trabalhadores com diferentes posicionamentos.
Para essas lideranças, a associação do agro a um bloco político pode dificultar a relação com governos e afetar interesses econômicos do setor. A atividade depende de medidas relacionadas a crédito, juros, seguro rural, infraestrutura, comércio exterior, tributação e segurança jurídica, temas que precisam ser negociados independentemente de quem esteja no comando do governo federal.
Nesse contexto, a Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) não deverá realizar, neste momento, a tradicional rodada de encontros com candidatos à Presidência no primeiro turno das eleições de 2026. Também não há previsão de uma agenda semelhante no segundo turno, embora o cenário ainda possa ser reavaliado.
A estratégia representa uma mudança em relação a eleições anteriores. Antes de 2018, a FPA já promovia encontros com pré-candidatos para discutir as principais demandas do setor. Naquele ano, Jair Bolsonaro participou de uma dessas agendas. No segundo turno, a frente declarou apoio à candidatura do então presidente.
Em 2022, a entidade voltou a convidar presidenciáveis, incluindo Luiz Inácio Lula da Silva, que, segundo a reportagem, não participou do encontro.
A mudança de postura ocorre após anos de conflitos entre parte do agronegócio e o governo Lula. Desde 2023, questões como segurança no campo, demarcação de terras indígenas, crédito rural, Plano Safra e políticas para os preços dos alimentos provocaram divergências entre o Executivo e representantes do setor.
Em 2024, a relação ficou ainda mais tensionada após o governo anunciar a importação de arroz para tentar conter a alta dos preços depois das enchentes no Rio Grande do Sul. O leilão realizado pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) acabou cancelado após questionamentos sobre as empresas vencedoras.
Já em 2025, novas divergências envolveram linhas de crédito do Plano Safra e medidas relacionadas aos preços dos alimentos. Em 2026, a renegociação das dívidas rurais também se tornou um dos principais pontos de disputa entre Congresso, FPA e governo.
Ao mesmo tempo, questões comerciais aproximaram governo e setor produtivo em algumas negociações. As tarifas impostas pelos Estados Unidos a produtos brasileiros atingiram parte das exportações do agronegócio e levaram empresas e entidades a buscar alternativas para preservar mercados.
Diante desse histórico, lideranças do setor defendem uma separação maior entre preferência política e representação institucional. A avaliação é que produtores, empresas e entidades continuarão participando do debate político, mas sem necessariamente transformar o agronegócio em um bloco eleitoral.
A eleição de 2026 será, nesse sentido, um primeiro teste para essa nova estratégia. A intenção não é eliminar a participação política do setor, mas preservar a capacidade de diálogo com diferentes governos e evitar que uma escolha eleitoral seja apresentada como posição única de todo o agronegócio.





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