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Quando trabalhar nunca parece suficiente: falta de reconhecimento pode levar ao adoecimento

Pesquisa aponta que cobranças excessivas, assédio, metas inalcançáveis e a invisibilidade dos esforços diários podem transformar o ambiente profissional em fonte de sofrimento e exaustão


Quando trabalhar nunca parece suficiente: falta de reconhecimento pode levar ao adoecimento Foto: Freepik

Entregar resultados, cumprir prazos, assumir novas responsabilidades e, mesmo assim, terminar o dia com a sensação de que nunca foi suficiente. Essa realidade, presente em diferentes ambientes profissionais, pode ultrapassar a insatisfação com o emprego e provocar impactos na saúde dos trabalhadores.

A falta de reconhecimento profissional foi analisada pelo pesquisador Ricardo Bertoni Pompeu, da Faculdade de Ciências Aplicadas da Unicamp, na tese de doutorado “Reconhecimento no ambiente de trabalho: indo além da Justiça Organizacional”. O estudo reuniu relatos de trabalhadores de diferentes setores e investigou esforços que dificilmente aparecem em metas, planilhas ou avaliações de desempenho.

A pesquisa chama atenção para tudo aquilo que precisa ser feito para que uma tarefa seja efetivamente concluída. Além do resultado entregue, existem esforços físicos, cognitivos, afetivos, emocionais e psíquicos que fazem parte da rotina profissional, mas nem sempre são considerados pelas organizações.

Uma atividade aparentemente simples, como produzir um relatório, por exemplo, envolve decisões sobre quais informações utilizar, como organizar os dados e qual profundidade dar ao conteúdo. Ao mesmo tempo, o profissional pode enfrentar desconfortos físicos, preocupação com a reação dos colegas, insegurança sobre a qualidade da entrega e dúvidas sobre como seu desempenho será avaliado.

É nesse cenário que aparece o chamado “trabalho real”: tudo aquilo que o profissional precisa mobilizar para conseguir entregar o que foi solicitado, mas que permanece praticamente invisível quando a avaliação considera apenas o resultado final.

A pesquisa ouviu 18 trabalhadores, com idades entre 20 e 40 anos, de diferentes setores. Entre os problemas relatados aparecem assédio, metas difíceis de alcançar, falta de recursos, estagnação profissional, ausência de perspectivas e a sensação de invisibilidade dentro das organizações.

Um dos casos analisados foi o de um vendedor que buscava uma promoção e chegou a abrir mão de comissões, reduzindo a própria renda, para tentar assumir o cargo de subgerente. A empresa, porém, contratou outra pessoa para a função e ainda determinou que ele treinasse o novo funcionário. Segundo o estudo, depois da experiência, o trabalhador passou a apresentar sintomas como ansiedade e gagueira.

A partir dos relatos, o pesquisador propõe dois conceitos para explicar problemas encontrados nas relações profissionais contemporâneas: “contingencialidade” e “disjuntividade”. A primeira ocorre quando o trabalhador passa a ser tratado principalmente de acordo com as necessidades imediatas da organização, com pouca consideração por sua vida pessoal, estudos, projetos e expectativas.

Já a disjuntividade está relacionada ao apagamento da trajetória profissional. Nesse cenário, experiências anteriores, dedicação e conhecimento acumulado perdem espaço diante da cobrança pelo desempenho imediato. O trabalhador pode passar a ter a sensação de que precisa provar constantemente o próprio valor.

A discussão também ganhou espaço nas normas de segurança e saúde no trabalho. Desde maio de 2026, fatores de risco psicossociais relacionados ao trabalho passaram a integrar de maneira expressa o gerenciamento de riscos ocupacionais previsto na NR-1. Entre os aspectos que devem ser observados estão situações relacionadas à organização do trabalho que possam contribuir para o adoecimento, como sobrecarga de tarefas, jornadas excessivas, assédio e cobranças desproporcionais.

Para o pesquisador, no entanto, a existência de regras não garante, sozinha, uma transformação na rotina das organizações. Ele destaca a importância de mecanismos efetivos de prevenção e de canais pelos quais os trabalhadores possam relatar problemas encontrados no ambiente profissional.

O estudo reforça que reconhecer um profissional não significa apenas elogiar uma entrega ou recompensar resultados. Também envolve perceber os esforços, dificuldades e responsabilidades existentes por trás do trabalho realizado. Quando a cobrança se torna permanente e o reconhecimento nunca chega, os efeitos podem aparecer justamente onde metas e planilhas não conseguem medir: na saúde e no bem-estar de quem trabalha.

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